O impacto dos emagrecedores no diagnóstico de transtornos alimentares.
Ela perdeu peso corporal, e o grupo da família não para de elogiar. A roupa antiga voltou a servir, a foto que ela evitava agora vai para o feed, a vontade de comer diminuiu. Por fora, tudo virou motivo de comemoração. Por dentro, a relação com a comida continua a mesma, a ansiedade antes de abrir a geladeira permanece, e ela ainda sente culpa depois de comer. Essa parte não aparece na balança e é justamente o que costuma ficar sem cuidado.
Os medicamentos usados para emagrecer agem no apetite e na quantidade de alimento que o corpo pede. Dentro de um tratamento conduzido por profissionais, isso pode ser muito bem-vindo. Mas, quando a fome diminui, podemos perder a chance de perceber um transtorno alimentar que segue ativo.
Por que um transtorno alimentar passa despercebido em quem emagrece
O transtorno da compulsão alimentar é o mais comum entre os distúrbios alimentares e, ao mesmo tempo, um dos mais difíceis de diagnosticar em quem vive com obesidade. Pesquisadores que revisaram o tema na revista Endocrines, em 2024, estimaram que de 5% a 30% das pessoas com obesidade têm compulsão alimentar, e com mais força justamente em quem está tentando emagrecer.
O estudo mostra ainda que, entre os que preenchem os critérios do transtorno, apenas 3,2% chegaram a receber o diagnóstico de um profissional habilitado São cerca de 3 pessoas em cada 100. As outras 97 seguiram sem um nome para o que estavam sentindo.
Um dos motivos citados é que o comportamento alimentar alterado se mistura com a própria obesidade, e o transtorno deixa de ser visto como uma condição à parte. Com a evolução das medicações para emagrecer, o que se observa é que, quando se entra com um medicamento que reduz a sensação de fome, a confusão tende a crescer. O paciente come menos, a balança responde, e é fácil concluir que o problema foi resolvido.
A diferença entre silenciar o sintoma e cuidar da causa
Comer demais em um momento de angústia raramente é só uma questão de apetite. Muitas vezes é uma alternativa que algumas pessoas encontram para dar conta de uma emoção difícil. Uma revisão publicada em 2025 na revista Nutrients acende um alerta. Reduzir o apetite pode melhorar o comer emocional no começo, mas a dificuldade de lidar com as emoções, que é o que sustenta esse comportamento, continua ali, intacta. O estímulo de comer cai. A dor que pedia aquela comida, não.
Podemos chamar isso de mascaramento, quando comportamentos de restrição são lidos como adesão exemplar ao tratamento, mas, no fundo, podem esconder um sofrimento que pedia olhar clínico. Isso fica ainda mais preocupante em quem tem o peso corporal considerado dentro dos padrões, já que existe a tendência de algumas pessoas em julgar transtornos alimentares pela balança, e não pelo comportamento.
O que a ciência ainda não fechou
A evidência disponível não mostra que o medicamento para emagrecer, sozinho, cria ou esconde um transtorno alimentar. Alguns estudos clínicos até observaram menos episódios de compulsão no curto prazo. A pergunta que mais importa, porém, segue sem resposta clara: o que acontece com a relação com a comida ao longo do tempo? E essa questão continua em aberto porque os próprios trabalhos científicos olharam pouco para isso.
Em 2025, ao reunir 25 pesquisas que avaliaram indivíduos que faziam uso desses medicamentos, os pesquisadores notaram que quase nenhuma delas rastreou transtornos alimentares antes ou durante o tratamento e que o acompanhamento parava cedo, entre 3 e 6 meses. Sem realizar o rastreio no início e sem observar o paciente por mais tempo, fica impossível saber se um transtorno passou despercebido. Por isso a necessidade de fazer acompanhamento com um profissional especializado em saúde mental antes mesmo do início do tratamento, além de rastrear possíveis transtornos alimentares e seguir acompanhando o paciente ao longo do caminho.
Cuidar do corpo e cuidar da mente andam lado a lado
Na prática, alguns passos podem ajudar no processo de emagrecimento com consciência.
- Repare no que aparece quando a fome vai embora. Se a ansiedade, a culpa ou a vontade de controlar a comida continuam fortes, isso é informação valiosa para levar à consulta.
- Conte a história inteira para quem cuida de você. Episódios de comer muito e rápido, a sensação de perder o controle da situação, a restrição rígida ou qualquer recurso utilizado para compensar o que comeu merecem ser ditos em voz alta.
- Procure um profissional de saúde mental. A terapia cognitivo-comportamental continua sendo o tratamento de referência para a compulsão alimentar e trabalha a causa, não apenas o sintoma.
- Trate o medicamento como parte de um plano acompanhado por profissionais, e nunca como uma decisão tomada por conta própria.
A balança mede o peso corporal em quilos, mas não mede a paz na hora de comer, e é essa paz que faz qualquer resultado durar e valer a pena. Quem chegou até aqui e se reconheceu em algum momento tem um bom motivo para levar o assunto a um profissional de saúde especializado. Procurar ajuda é cuidado, e ninguém precisa atravessar esse processo sozinho.
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Fontes
Marucci S, Busetto L, Chianelli M, et al. “Screening, Diagnosis, and Treatment of Patients with Binge Eating Disorder and Obesity, What the Endocrinologist Needs to Know.” Endocrines, 2024, 5(1):87-101 — Embasa que o transtorno da compulsão alimentar é subdiagnosticado em pessoas com obesidade (prevalência de 5% a 30%, maior em quem tenta emagrecer) e que tratar só as comorbidades, sem reconhecer o transtorno, tem pouco efeito. Robustez: revisão por pares, Editor’s Choice; é revisão narrativa de orientação clínica.
Krug I, Dang AB, Portingale J, et al. “Beyond Weight Loss, GLP-1 Usage and Appetite Regulation in the Context of Eating Disorders and Psychosocial Processes.” Nutrients, 2025, 17(23):3735 — Embasa o conceito central de mascaramento, comportamentos restritivos podem ser confundidos com boa adesão ao medicamento, e a supressão do apetite não resolve os déficits de regulação emocional que sustentam o comer emocional. Robustez: revisão por pares, 2025; é revisão de literatura, não estudo primário.