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Aterosclerose: o que é, como se forma e por que entender essa condição pode mudar sua forma de cuidar do coração

Publicado en 10 de August de 2026

No Brasil, as doenças cardiovasculares respondem por cerca de 30% de todas as mortes registradas a cada ano, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. Por trás de boa parte desses óbitos existe um processo silencioso que começa décadas antes do primeiro sintoma: o acúmulo gradual de placas de gordura nas paredes internas das artérias. Esse processo tem nome, mecanismo bem descrito pela ciência e uma relação direta com fatores que milhões de brasileiros já conhecem de perto, como pressão alta e colesterol elevado.

O problema é que a muitas das pessoas só ouve falar em aterosclerose quando já enfrenta uma consequência grave, como um infarto ou um AVC. Até esse ponto, a condição avança sem dor, sem alerta visível e, muitas vezes, sem que o paciente perceba que seus exames de rotina já sinalizavam risco. Por que algo tão comum e tão perigoso ainda é tão pouco compreendido fora dos consultórios?

Este artigo explica o que é aterosclerose, como ela se forma dentro das artérias, quais fatores aceleram sua progressão e de que maneira ela se conecta aos eventos cardiovasculares mais temidos. Mais do que traduzir o vocabulário médico, o objetivo é oferecer um mapa claro para que você entenda o que está acontecendo no seu corpo e o que pode fazer, no dia a dia, para reduzir esse risco.

O que é aterosclerose e como ela se desenvolve

Aterosclerose é uma doença crônica e progressiva em que placas de gordura, cálcio e outras substâncias se acumulam na parede interna das artérias, tornando esses vasos mais estreitos e rígidos ao longo do tempo. O resultado é uma redução do fluxo de sangue que chega aos órgãos, incluindo o coração e o cérebro.

O processo começa com a disfunção do endotélio, a camada mais interna da artéria, associada à retenção de colesterol na parede do vaso. Essa disfunção é favorecida por fatores como pressão arterial elevada, excesso de colesterol LDL no sangue, tabagismo ou níveis altos de glicose. Nesse cenário, as partículas de LDL atravessam o endotélio por um processo chamado transcitose e ficam retidas na camada íntima da artéria, onde desencadeiam uma resposta inflamatória local.

Células do sistema imunológico, chamadas macrófagos, captam esse LDL modificado, como o LDL oxidado, por meio de receptores específicos. O acúmulo de lipídios nessas células leva à formação das chamadas células espumosas, que contribuem para o desenvolvimento da estria gordurosa e, mais tarde, da placa aterosclerótica. Com o tempo, essas estrias evoluem para placas mais complexas, compostas por gordura, tecido fibroso e depósitos de cálcio.

Esse processo não acontece de um dia para o outro. Estudos de autópsia já identificaram estrias gordurosas em artérias de adolescentes e jovens adultos, bem antes de qualquer sintoma. A aterosclerose pode levar décadas até causar sintomas perceptíveis, o que explica por que muitas pessoas só descobrem a condição em um momento de urgência.

Colesterol LDL, pressão alta e outros fatores que aceleram o processo

Se a aterosclerose é um processo lento, certos fatores funcionam como aceleradores. Quanto mais deles estiverem presentes ao mesmo tempo, maior a velocidade com que com que a placa se acumula e mais cedo os sintomas podem aparecer.

Colesterol LDL elevado

O colesterol LDL é frequentemente chamado de “colesterol ruim” porque, em excesso, deposita-se nas paredes das artérias e alimenta diretamente a formação das placas. Manter o LDL dentro dos valores recomendados pelo médico é uma medida importante e eficaz para desacelerar a aterosclerose.

Pressão arterial alta

A hipertensão exerce força excessiva contra as paredes dos vasos, provocando microlesões no endotélio. Essas lesões facilitam a entrada de colesterol e o início do processo inflamatório. Quem convive com pressão alta e colesterol elevado ao mesmo tempo apresenta um risco cardiovascular maior do que aquele associado isoladamente a cada um desses fatores.

Outros fatores relevantes

  • Tabagismo: substâncias do cigarro danificam o endotélio, reduzem o colesterol HDL (o “bom” colesterol) e favorecem a formação de coágulos.
  • Diabetes e resistência à insulina: níveis elevados de glicose no sangue aceleram a inflamação vascular e tornam as placas mais instáveis.
  • Sedentarismo: a falta de atividade física regular está associada a piores perfis de colesterol, maior resistência à insulina e aumento da pressão arterial.
  • Obesidade abdominal: o acúmulo de gordura visceral libera substâncias inflamatórias que contribuem para a progressão das placas.
  • Histórico familiar: ter parentes de primeiro grau que sofreram eventos cardiovasculares precoces aumenta o risco, mesmo quando os demais fatores estão controlados.
  • Idade e sexo: o risco cresce com a idade. Homens tendem a desenvolver aterosclerose mais cedo, enquanto mulheres veem o risco aumentar significativamente após a menopausa.

Vale destacar que esses fatores raramente aparecem isolados. A combinação de pressão alta, colesterol elevado e glicose alterada no mesmo exame configura o que se chama de síndrome metabólica, uma condição que eleva substancialmente o risco cardiovascular.

Qual a relação entre aterosclerose, infarto e AVC

A aterosclerose é o mecanismo que conecta fatores de risco aparentemente distintos a eventos cardiovasculares graves. Entender essa conexão ajuda a compreender por que o médico insiste em controlar a pressão e o colesterol mesmo quando o paciente se sente bem.

Como a aterosclerose causa infarto

Quando uma placa de gordura se rompe em uma artéria coronária (as artérias que irrigam o músculo cardíaco), o organismo reage ativando as plaquetas e os mecanismos de coagulação, levando à formação de um coágulo no local da ruptura. Se esse coágulo for grande o suficiente para bloquear completamente o fluxo de sangue, a região do coração que dependia daquela artéria deixa de receber oxigênio. Esse é o infarto agudo do miocárdio.

Como a aterosclerose causa AVC

O mesmo mecanismo pode ocorrer nas artérias que levam sangue ao cérebro. Uma placa pode se romper e levar à formação de um coágulo que obstrui o fluxo cerebral, causando um acidente vascular cerebral isquêmico. Em outros casos, fragmentos da placa se desprendem e viajam pela corrente sanguínea até bloquear um vaso menor no cérebro.

O conceito de placa vulnerável

Nem toda placa aterosclerótica apresenta o mesmo risco. Placas com uma capa fibrosa fina e um núcleo rico em gordura são consideradas vulneráveis, ou instáveis, porque apresentam maior propensão à ruptura. Isso ajuda a explicar por que o grau de obstrução do vaso, isoladamente, não determina o risco da placa. Mesmo uma placa que provoca uma obstrução menor pode ser mais perigosa do que uma placa mais obstrutiva se apresentar características de vulnerabilidade.

Parte dos infartos tem origem, justamente, em placas que ainda não estreitam muito a artéria. Por isso, o controle dos fatores de risco cardiovascular é importante não apenas para reduzir a progressão da placa, mas também para reduzir o risco associado à sua vulnerabilidade.

Sinais de alerta que merecem atenção antes que o problema avance

A aterosclerose em estágio inicial geralmente não produz sintomas. Os sinais costumam aparecer quando o estreitamento da artéria já compromete significativamente o fluxo sanguíneo ou quando uma placa se rompe.

Os sintomas variam conforme a localização das artérias afetadas:

  • Artérias coronárias (coração): dor ou pressão no peito durante esforço físico ou estresse emocional, falta de ar desproporcional ao esforço, cansaço persistente sem causa aparente.
  • Artérias carótidas (cérebro): fraqueza ou dormência súbita em um lado do corpo, dificuldade para falar, perda temporária de visão em um olho.
  • Artérias periféricas (pernas): dor nas pernas ao caminhar que melhora com o repouso (claudicação intermitente), feridas nos pés que demoram a cicatrizar.

Esses sinais não devem ser ignorados ou atribuídos apenas ao envelhecimento. Qualquer sintoma novo que envolva dor no peito, perda de força em um lado do corpo ou dificuldade respiratória súbita exige avaliação médica imediata.

Para quem já convive com pressão alta ou colesterol elevado, a ausência de sintomas não significa ausência de risco. Os exames de rotina solicitados pelo cardiologista, como perfil lipídico, glicemia e, em alguns casos, exames de imagem vascular, podem auxiliar na identificação da aterosclerose antes que ela provoque manifestações clínicas, contribuindo para a avaliação do risco cardiovascular.

O que você pode fazer no dia a dia para reduzir a progressão

A aterosclerose não tem cura, mas pode ser desacelerada e, em alguns casos, parcialmente estabilizada. As medidas mais eficazes combinam mudanças de hábito com acompanhamento médico regular.

Alimentación

Priorizar frutas, verduras, legumes, grãos integrais, peixes e azeite de oliva. Reduzir o consumo de gorduras saturadas, gorduras trans, alimentos ultraprocessados e excesso de sal. Esse padrão alimentar, próximo da dieta mediterrânea, está associado a menor inflamação vascular e melhor perfil de colesterol.

Actividad física

A recomendação geral é de pelo menos 150 minutos por semana de atividade aeróbica moderada, como caminhada rápida, natação ou ciclismo. A prática regular melhora o colesterol HDL, reduz a pressão arterial, auxilia no controle do peso e diminui a resistência à insulina. Para quem tem condições cardíacas já diagnosticadas, o tipo e a intensidade do exercício devem ser definidos com o médico.

Controle do tabagismo

Parar de fumar é uma das intervenções com maior impacto na saúde vascular. Os benefícios começam a aparecer já nas primeiras semanas após a cessação: a pressão arterial diminui, o colesterol HDL começa a subir e a função endotelial melhora progressivamente.

Adesão ao tratamento medicamentoso

Medicamentos para controle da pressão arterial, estatinas para redução do colesterol e antidiabéticos orais são prescritos com base no perfil de risco individual. Interromper ou ajustar a dose por conta própria pode comprometer todo o esforço de prevenção. Converse com seu médico sobre qualquer dúvida ou efeito colateral antes de alterar o tratamento.

Monitoramento regular

Manter as consultas e os exames em dia permite que o médico acompanhe a evolução dos fatores de risco e ajuste a estratégia de cuidado. Pressão arterial, perfil lipídico, glicemia e, quando indicado, exames como o escore de cálcio coronário ajudam a medir o quanto a aterosclerose está avançando.

Infográfico Aterosclerose de A a Z explica formação da placa, fatores de risco, sinais de perigo, exames e tratamento.

Perguntas frequentes sobre aterosclerose

Aterosclerose tem cura?

Não existe cura definitiva, mas a progressão pode ser significativamente desacelerada e as placas podem ser estabilizadas com controle dos fatores de risco, mudanças no estilo de vida e uso adequado de medicamentos prescritos pelo médico.

Aterosclerose é a mesma coisa que arteriosclerose?

Não exatamente. Arteriosclerose é um termo mais amplo que se refere ao endurecimento das artérias por qualquer causa. Aterosclerose é um tipo específico de arteriosclerose, causado pelo acúmulo de placas de gordura. Na prática clínica, o termo aterosclerose é o mais utilizado para descrever o entupimento das artérias por placas de gordura.

É possível ter aterosclerose sem colesterol alto?

Sim. Embora o colesterol LDL elevado seja um dos principais fatores, a aterosclerose também é impulsionada por inflamação, hipertensão, diabetes, tabagismo e outros fatores. Uma pessoa com colesterol dentro da faixa normal pode desenvolver a condição se outros fatores de risco estiverem presentes.

A partir de que idade devo me preocupar com aterosclerose?

O processo pode começar já na juventude, mas o risco de eventos clínicos cresce a partir dos 40 a 50 anos. Para quem tem fatores de risco como hipertensão, colesterol alto, diabetes ou histórico familiar de doença cardiovascular precoce, o acompanhamento deve começar mais cedo, conforme orientação médica.

Quais exames detectam aterosclerose?

O perfil lipídico e a glicemia avaliam fatores de risco. Exames de imagem, como o escore de cálcio coronário, o ultrassom de carótidas e a angiotomografia, podem identificar a presença e a extensão das placas. O médico define quais exames são indicados com base no perfil de risco de cada paciente.

Quando devo conversar com meu médico sobre aterosclerose?

Se você convive com pressão alta, colesterol elevado, diabetes ou tem histórico familiar de infarto e AVC, o tema já deveria fazer parte das suas consultas. Não espere o surgimento de sintomas. Pergunte ao seu médico sobre seu risco cardiovascular e sobre a necessidade de exames complementares.

Entender a aterosclerose é o primeiro passo para agir antes que ela se torne uma emergência. Se você quer aprofundar esse conhecimento, explore também nossos conteúdos sobre colesterol HDL e LDL, sedentarismo e risco cardiovascular e como funciona o sistema cardiovascular.

Fuentes consultadas
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